Sirigüelas
Se existe um ponto chave de minha vida que me remete à infância são as sirigüelas. São essas frutas, mais que qualquer jogo de bola, mais que qualquer brinquedo, mais que os passarinhos que os meninos da roça matavam a baladeira (*) para lhes comer vivos os corações, mais que qualquer outra coisa, que ligam minha alma à alma da criança que um dia fui. ÿ que no antigo sítio do meu avô, que levava o nome de outra fruta - Muçambê, no distrito cearense de Maracanaú, havia dois grandes pés de sirigüela e eles eram o quartel general das brincadeiras das crianças, eu, meu irmão e meus primos mais velhos. Para quem nunca viu, uma sirigüela é uma fruta do tamanho aproximado de uma azeitona daquelas chilenas, grandes. Tem uma casca fina e amarga e uma polpa suculenta, entre doce e azedinha. Ela nasce em cachos em uma árvore típida da caatinga: retorcida e espalhada e desse modo, assim como os cajueiros, perfeita para subir. No pé que ficava na varanda da frente da casa do sítio, as crianças passavam as manhãs inteiras, comendo as frutas e brincando e assim foi por anos e anos, até o dia em que o sítio foi vendido e eu nunca mais soube o que era o gosto das sirigüelas. Pelo menos daquelas.
O fato é que, apesar disso, eu perseguia esse gosto antigo de infância desde então. Ora, mas essa fruta é tão rara assim que não se ache para comprar? Bem, sim e não. Acontece que uma das coisas interessantes sobre as sirigüelas é que elas são amadurecem de uma forma estranha. Verdes e duras no início, tornam-se amarelas e depois alaranjadas e macias, até chegarem a um ponto em que estão vermelhas como pitangas. Essa é a melhor hora para comê-las. Contudo, quando a sirigüela chega nesse ponto, ela está quase passada e não é possível comercializá-las nesse estado, não durariam um dia sequer: a polpa se liquefaz e a fruta estraga. Por isso, só se encontram sirigüelas alaranjadas para vender. E nessa cor, a gente sequer encostava nelas no sítio. Estavam praticamente verdes. Por isso, toda sirigüela que eu comi desde então, fora do Muçambê, foi decepcionante.
E eu bem que tentei, bem que procurei. Comprei pelas praias e em supermercados, tomei suco de polpa, sorvete em locais exóticos… nada chegava perto. E eu sempre achei que a questão era achar um pé de sirigüela que me permitisse voltar a saborear uma das frutas maduras e vermelhas da infância. Mas por três vezes eu encontrei outras árvores e nas três vezes a experiência também foi decepcionante. Uma vez, em pleno sertão do Cariri, havia um pé no quintal da casa onde me hospedei. Homem feito, subi sorrateiramente na árvore para saborear as frutinhas. Faltava alguma coisa que eu não sabia o que era. No dia seguinte, tendo contado o que fizera, achei um balde cheio na mesa do café, que segundo a dona da casa, poupar-me-ia o trabalho de colhê-las. Horrorizado, agradeci mas mal consegui tocá-las. Anos depois, em uma festa num sítio próximo a Fortaleza, encontrei outro pé de sirigüela. Por infelicidade, havia poucas na árvore e nem deu para tirar um gosto, apenas uma foto. E no início deste ano, uma surpresa: encontrei um pé feito uma trepadeira numa casa de subúrbio, aqui mesmo no Rio de Janeiro, quando fui buscar os salgadinhos para a festa de aniversário de minha filha mais velha. Levei algumas para casa e até tentei plantá-las. Em vão. Não havia nenhuma rubra e madura.
Só quase no final do ano é que eu fui descobrir porque era tão difícil relembrar a infância no gosto das sirigüelas. Tudo bem, é certo que o gosto doce das frutas maduras não é a mesma coisa do sabor cheio de cica das alaranjadas. E não era só o fato de que elas não eram as sujas e sujeitas às intempéries da natureza, nos cachos da árvore - ao contrário, eram as higienizadas nos pacotinhos de isopor e filtro plástico do supermercado. ÿ que definitivamente faltava algo, algo que eu só percebi o que era quando vi minha filha comendo sirigüelas pela primeira vez na minha frente. Ela nunca tinha visto as frutinhas e adorou. E quando eu vi minha filha comendo de se acabar, babando e pingando sirigüela pelos dedos, eu percebi o que faltava: a companhia. De tanto buscar minhas lembranças nos sentidos egoístas do paladar, tato e olfato, esqueci que durante os poucos e fantásticos anos de fins de semana vividos no sítio, comer sirigüelas encarapitados na árvore nunca tinha sido uma atividade solitária. Era sempre coletiva, sempre com irmão e primos, sempre entre companheiros, entre amigos. Está aí, ao que parece, o que afasta tanto as lembranças infantis dos adultos: a idéia de que essas lembranças, principalmente as felizes, podem ser revividas em pensamentos e atos solitários.
(*) Bodoque
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December 31st, 2007 at 06:12
Marcos,
Delicioso seu texto, assim como as seriguelas (que gosto tanto, inclusive do nome, ao ponto de ter registrado um dominio seriguela.com).
Mas traduzir com “bodoque” foi a mesma coisa que dar um chute no saco dos sulistas (sou baiano e entendi, conheço também como badogue). Melhor seria dizer “estilingue”.
Abraço e feliz 2008
January 2nd, 2008 at 12:01
Marcos,
Seu texto trouxe boas lembranças de minha infância em Goiás. Na fazenda de meu avô Gabriel havia um pé de serigüela ao lado do munjolo. Ele adorava a frutinha. Embora não gostasse muito da fruta, eu sempre acompanhava meu avô, para apanhar as frutas maduras. Ele era uma pessoa severa e reservada mas, nestes momentos, ele se transformava num companheiro alegre e falante. Como você também descobriu, o sabor da serigüela estava na companhia.
January 2nd, 2008 at 05:01
Marcos,
Na minha infância não comí sirigüela, mas gostava muito de comer, quando em minhas alegres brincadeiras com a minha “patota” (irmão, primos e amiguinhas) : pitomba, muricí, guajurú, ingá, bacurí, abricó, graviola, cajá, cupú-açú, sapotí. Hoje,
tenho saudade desse tempo da minha infância, em que tudo para mim era visto e sentido com especial sabor . Abraços e Feliz 2008! Laura Maia
January 3rd, 2008 at 04:01
Marcos,
Na minha infância não comí sirigüelas, mas lembro-me, com saudades, de que sempre compartilhando com a minha “patota” (irmão, primos e amiguinhas), goatava de comer algumas frutinhas: pitomba, muricí, guajurú, ingá, jambo, cajá, graviola, bacurí, ginja, sapotí, tamarindo, jatobá e manga verde com sal (escondido da Mãe). Como foi bom esse meu tempo de infância, que me fazia ver e sentir as coisas de um modo todo diferente e especial! A você o meu abraço, extensivo à família, com votos de Feliz 2008. Laura Maia
March 8th, 2008 at 09:03
Adorei o seu texto!!
Sem dúvidas existem momentos especiais em nossa infância, tão simples como comer uma fruta com os amigos, que somente hoje é que percebemos o quanto foi importante.
Mas vou lhe causar inveja agora, aqui na minha casa tem dois pés de seriguela e estão carregados, vermelhinhas e amarelihas, todas as tardes ao chegar do trabalho me delicio com os frutos.
Aqui no Paraná elas só produzem nessa época, por uns 2 meses, tem que aproveitar bastante, porque depois é so no próximo ano.
Um Grande abraço.
Márcio.