27/09/2009
por Wagner Fontoura

Inferno-1024x426

O inferno é um quarto escuro de um hospital público; tem uma porta de ferro com um porteiro cocho com cara de mau e um longo corredor frio. Celas que nem solitárias são – têm duas camas cada e numa delas pousa um homem sujo, desgrenhado, preso a si mesmo por uma camisa de força suja (e por seus pecados) e por correntes grossas à cama. E é pra lá que eu fui um dia, aos trinta e poucos anos de idade, num final de semana, depois de ingerir 60 comprimidos de um “tarja preta” que já me viciara e que até ali deveriam estar me salvando da mais profunda depressão causada por perdas recentes, profundas, dramáticas e insuportáveis (a morte repentina do meu pai, a descoberta da doença crônica do meu filho mais novo, a falência financeira, o fim do casamento de 18 anos, a perda do melhor amigo, tudo junto, ao mesmo tempo, num pequeno lapso de tempo).

Quatro dias de semi-inconsciência dos quais a única lembrança viva e contínua que minha mente se permitiu preservar foi a onipresença do Heitor – meu filho mais velho – ao meu lado, segurando minha mão, ouvindo todas as coisas sem nexo que eu dizia e que diziam a respeito do que poderia estar acontecendo comigo, e me dizendo – “Eu estou aqui. Não se preocupe com nada. Eu te amo. Eu vou tirar você daqui – você vai ver. Eu vou proteger você. Confia em mim, tá?”.

Anjos existem. Eu sei. O meu anjo foi ao inferno me resgatar de lá. Ele não era um espírito desencarnado, mas um ser luminoso, com a pureza de um adolescente, de cabelos encaracolados, tem grandes olhos verdes e sabe muito, muito bem, o que é o amor. Sabe com a grandeza dos mestres, dos sábios. Ele tem o dom de curar. Seu toque acalma maremotos interiores. Seu beijo tem o sopro de vida. Quando ele chega, a felicidade não cabe mais em mim – transborda, transborda, transborda, meu amor entra em ebulição!

Assim como inexplicavelmente já era em relação ao Miguel – meu caçula – desde sempre. Como foi sempre fácil amar aquele furacão de emoções, de vida, de energia que sempre foi meu filho mais novo! Com o Heitor era diferente… éramos tão parecidos (ou pelo menos eu achava que era até descobrir o quanto ele é maior que eu, melhor que eu)! Eu via nele – no Heitor – muito do que eu gostaria de melhorar em mim mesmo e isso me irritava, às vezes.

Já o Miguel ria dos meus defeitos, fazia troça deles, desrespeitava e enfrentava minhas pequenezas. E eu admirei desde sempre esse seu desprendimento, sua capacidade de ser ele mesmo apesar de mim. E era fácil amá-lo, respeitá-lo, admirá-lo! Era e é. Quando ficou diabético, aos 11 anos de idade, chamou pra si o controle da doença e domou-a como doma tudo nessa vida. seis medições diárias de glicemia, três aplicações de insulina, dieta fortemente restritiva, disciplina ferrenha. Mole pra ele. Foi assim até que a bomba de infusão o livrou de tudo isso e ele venceu a doença crônica rindo dela, desafiando-a, mas respeitando-a com maturidade de gente grande.

Eu os olho hoje… lindos, bem humorados, inteligentes, fortalecidos por uma vida que, se foi (e foi) divertida, boa – até aqui – também já lhes reservou desafios de gente grande. E eles vêm, sistematicamente, vencendo um a um com uma desenvoltura que eu olho e penso: de onde tiraram tanta força? Onde foi que eu acertei?

Cenário

Essa “crônica”, na verdade, foi escrita por mim em agosto de 2007, semanas antes do lançamento da 1a versão do blog Nossa Via, a convite da Samantha Shiraishi, então uma das editoras de outro blog coletivo, o Desabafo de Mãe. Foi publicada lá na semana do dia dos pais aquele ano como uma reverência minha aos meus filhos (mencionados aqui com seus nomes alterados), os heróis dessa história real; um flash do momento mais difícil da minha vida pessoal.

Foi exatamente nessa época que conheci a Sam, que viria a se tornar, na sequência, editora-chefe do Nossa Via e minha melhor amiga. Nessa mesma época também conheci o Helton Kuhnen, também desde então meu melhor amigo e sócio. Ambos se transformaram em pilares da minha vida pessoal e profissional; juntos construímos muito desde então. E foi no início dessas amizades tão sólidas que “arquitetamos” juntos o lançamento desse blog. A nós se juntaram imediatamente outros novos amigos, como o Diego Monteiro, sócio fundador da Via6, Cynara Peixoto, responsável pelo nosso primeiro layout, mais alguns dos principais expoentes da blogosfera nas suas categorias à época.

Durante a 1a fase de vida do blog a Sam levou-o, juntamente com o competente time de autores selecionados quase todos por ela mesma, a ser elencado por indicação pública entre os melhores blogs de Cultura e Arte do Best Blogs Brazil, seguramente um dos mais importantes prêmios da blogosfera brasileira.

Ficamos offline desde o início desse ano de 2009 cuidando de reformular o blog inteiramente. Isso porque precisávamos, sobretudo, de um modelo de negócio auto-sustentável. Esse modelo foi formulado e cá estamos nós. O layout novo é obra do competente George Macêdo (Gordo Nerd para os íntimos) e o restante ficou assim:

O Novo Nossa Via

Curadoria e Patrocínio: Coworkers Midias Sociais

Editores: Wagner Fontoura e Helton Kuhnen

Redatora-Chefe: Bruna Pimentel

Autores Convidados:

Categorias Principais:

· Comportamento, Cultura e Artes

Subcategorias:

  • Música
  • Dança
  • Pintura
  • Escultura
  • Literatura
  • Cinema
  • Teatro
  • Fotografia
  • HQ
  • Mitologia
  • Economia
  • Ética
  • Filosofia
  • Ciência
  • Política
  • Educação
  • Cultura Web
  • Cidades
  • Sustentabilidade
  • Sexo e Relacionamentos

Colunas Regulares:

  • 2as. Feiras: Crônicas da Vida, por autores convidados
  • 3as. Feiras: Visões do Mundo, por fotógrafos convidados
  • 4as. Feiras: Vídeos legais
  • 5as. Feiras: Agenda Cultural
  • 6as. Feiras: Listas Top 10 +

Colunas especiais:

  • Cobertura de Eventos
  • Reviews Patrocinados
  • Via Aberta

Ah, e, finalmente, mantivemo-nos sob o M de Mulher, agora o maior portal feminino do Brail, o qual tive o privilégio de ser um dos idealizadores e onde estou na companhia do amigo leal a quem admiro um monte e sou grato todos os dias por sempre tramar comigo coisas bacanas, Manoel Fernandes.

Agora, Bruna, tá contigo a bola. É MUITO BOM estar de volta e revê-los por aqui! Obrigado pelo prestígio com que sempre nos honraram. ;)

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9 comentários

Caro Wagner.
Eu acompanho, desde de o começo o brotar das ideias e a forma madura que as mídias sociais entraram na vida da Sam. Você sempre foi fiel aos seus princípios e sempre demonstrou respeito, amizade e carinho não só pela Sam, mas por toda a nossa pela nossa familia. Sou muito grato a ti pelas portas que abriu na nossa vida e uma delas, o Nossa Via, sempre esteve lá, encostadinha. Surge um novo tempo, novos ares, uma passagem que se abre e onde os ventos mornos saberão passar na hora certa. Parabéns a todos, sucesso nesse novo tempo junto ao M de Mulher.

Guilherme,

O fato de termos nos unido como uma grupo, praticamente como uma família, na luta pelos nossos propósitos certamente fez de nós mais fortes e nos deu as condições ideais de temperatura e pressão para tantas coisas que realizamos juntos até aqui.

Você, a Sam, os meninos são uma segunda (terceira?) família pra mim, um porto seguro, e suas amizades não têm preço. :)

28/09/2009 #

Querido Wagner…
A primeira versão do NossaVia e o seu convite também foi responsável pela minha entrada para o mundo bloguístico.
Ou seja, você é responsável por um dos meus vícios!!! hehehhe
Fico imensamente feliz por fazer parte da história da NossaVia e por ter sido convidado para continuar por aqui.
Muitas felicidades e parabéns pelo retorno!!!!

28/09/2009 #

In truth, immediately i didn’t understand the essence. But after re-reading all at once became clear.

28/09/2009 #

Max, sua companhia é uma honra e um prazer. :)

28/09/2009 #

É isso aí Mr Boombastic. Vida longa ao Nossa Via. Blog que desde sua primeira edição, eu já o tinha entre os principais coletivos do Brasil. Agora então, com a experiência proveniente do amadurecimento das novas mídias, tem tudo para voltar a figurar entre os grandes. E como diz o hino do meu grande São Paulo, por que não ser o primeiro?

Quanto a mim, não seria capaz de recusar ao ilustre convite de participar de um time assim.

Abraços e beijos, devidamente distribuídos.

29/09/2009 #

[...] Nós quase morremos, mas renascemos com força total – A crônica de retorno do NossaVia, por Wagner Fontoura [...]

[...] Nós quase morremos, mas renascemos com força total – A crônica de retorno do NossaVia, por Wagner Fontoura [...]

Existem pessoas que estam no mundo de passagem. Outras só são felizes quando inovam e deixam como marca, benefícios para os da sua raça.
O segundo perfil, é o meu irmão!
Parabéns pelo seu momento…
Abraço Wagner.
Alencar Fontoura

02/10/2009 #
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