O ensino da gramática está matando o prazer de ler de nossas crianças
O poeta Carlos Drummond de Andrade, no título de um de seus livros, diz: amar se aprende amando.O mesmo vale para outras atividades, sobretudo para aquelas que exigem alguma dose desse mesmo amor.
Pois bem.
Ler se aprende lendo. Escrever se aprende escrevendo.
O professor não espere inspirar a paixão pela leitura e pela escrita ensinando orações subordinadas e insubordinadas.
Sinceramente, até hoje eu sou um ignorante desses detalhes da língua. Não digo isso com orgulho. Mas tampouco tenho vergonha.
Simplesmente o digo para reafirmar que não me têm feito falta tais conhecimentos.
A gramática e aspectos mais analíticos da língua são a grande baboseira do ensino atualmente. Não que eles não sejam importantes. Ela são. Porém não são a prioridade neste instante.
Vamos deixá-los, por enquanto, aos tarados da Língua Portuguesa. São coisas para maiores de idade.
Veja só. O Brasil foi um dos piores colocados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos neste ano. No quesito leitura, foi o quadragésimo oitavo entre 56 participantes. Não conseguimos interpretar nem uma tabuleta de banheiro.
Isso quer dizer que, de geração à geração, nosso País vem se empenhando em formar analfabetos funcionais. Gente que sabe juntar as letrinhas, assinar o nome, mas que é incapaz de entender esta frase simples.
De um lado, temos professores que cumprem seus programas, tentando ensinar a gramática.
Esses mesmos professores, porém, ao cumprirem seus programas, não têm tempo ou mesmo interesse em despertar em seus alunos o prazer da leitura. ÿ claro, na hipótese de eles mesmos terem tal prazer.
Do outro lado, vemos alunos que não conseguem aprender a gramática, por ser chata e desinteressante quando não aplicada à escrita e quando não amparada por bons livros.
Esses mesmos alunos ainda não terão a chance de descobrir a leitura, que em suas mentes estará para sempre associada a um tipo de atividade enfadonha.
Veja o que diz Rubem Alves a respeito do aprendizado do prazer da leitura:
Tudo começa quando a criança fica fascinada com as coisas maravilhosas que moram dentro do livro. Não são as letras, as sílabas e as palavras que fascinam. ÿ a história. A aprendizagem da leitura começa antes da aprendizagem das letras: quando alguém lê e a criança escuta com prazer. (…) Acho que as escolas só terão realizado a sua missão se forem capazes de desenvolver nos alunos o prazer da leitura. O prazer da leitura é o pressuposto de tudo o mais. Quem gosta de ler tem nas mãos as chaves do mundo. Mas o que vejo a acontecer é o contrário. São raríssimos os casos de amor à leitura desenvolvido nas aulas de estudo formal da língua. (…) Sonho com o dia em que as crianças que lêem os meus livrinhos não terão de analisar dígrafos e encontros consonantais e em que o conhecimento das obras literárias não seja objeto de exames: os livros serão lidos pelo simples prazer da leitura.
Lembro, quando eu era criança, dos óculos que roubei à minha avó, na esperança de decifrar o conteúdo de um livro. Pois eu sempre a via usando os tais óculos quando lia para mim. E eu precisava, ainda desconhecedor das letras, saber o que havia dentro daquele livro.
Pedro Sette Câmara, do blog O Indivíduo, também defende a idéia de que o ensino da gramática deve ser revisto. Ele vai além e pede o seu fim:
(…) o aluno é obrigado a aprender um monte de regras e classificações vazias e tem pouco contato com o uso literário (isto é, melhor) da língua. De nada adianta saber a diferença entre o adjunto adnominal e o complemento nominal, ou apontar uma oração subordinada substantiva apositiva (coisa que só aprendi muito depois da escola, já que sempre abominei o estudo da gramática tanto quanto abominava a química orgânica e a física do fio sem massa e da superfície sem atrito) sem ser capaz de escrever claramente. Notem que eu falei ?claramente?, não ?corretamente?. A situação hoje é muito grave.
Recomendo a leitura integral do artigo Parem de Ensinar Gramática.
Se eu fosse professor, pararia.
E investiria meu tempo em ler todos os meus livros preferidos para meus alunos durante cada minuto de aula.
Quem sabe eu ainda salvasse dois ou três. Já seriam bastantes.








O Deputado Vicentinho (PT-SP), autor do projeto, acredita que essa medida pode acabar com a hegemonia dos desenhos animados extrangeiros no país.















