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Nossa Via

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Decidir aos 17 anos os próximos 100

o-que-vc-vai-ser-quando-voce-crescer.jpg Dar-se tempo para definir uma coisa séria como a profissão deveria ser um direito, ter a oportunidade de experimentar o mundo do trabalho, de fazer um intensivo de inglês, gastronomia, moda. Dar-se afinal o direito de recomeçar, sempre, porque nossa vida, ao que tudo indica, será muito longa. Se vamos passar dos 100 anos, por que escolher o que será do resto da vida aos 17?

Em conversa com um amigo outro dia, ele me falava da preocupação com o filho que terminará o segundo grau e não está concentrado só em fazer faculdade já. Razões paternas deixadas de lado, o papo me fez divagar sobre minha própria experiência na escolha de uma profissão e no quanto a idade ou maturidade sobre o mundo à minha volta ajudaram a acertar - na segunda vez. (more…)

Infernito particular

O conceito de inferno ? ou o hades, ou a geena ou como mais queiram chamá-lo - como lugar de suplícios e horrores existe em praticamente todas as religiões e faz parte do dia-a-dia de milhões de pessoas. Na literatura, o inferno foi descrito por inúmeros autores. Dante Alighieri viajou até ele em “A Divina Comédia”; James Joyce descreveu-o sob uma apavorante eternidade em “Retrato do Artista Quando Jovem”; Sartre criou um simples porém enlouquecedor inferno em “Entre Quatro Paredes”, livro de onde veio a famosa frase “o inferno são os outros”. O inferno de Joseph Conrad era o Congo de Kurtz em “O Coração das Trevas”. Até eu mesmo já escrevi sobre o inferno e há até quem ache que o Inferno não passa de um night club na Rua Augusta. Mas minha idéia de inferno é outra.Na verdade, eu imagino que cada pessoa tenha seu próprio inferno particular, construído dia-a-dia sobre suas próprias frustrações, medos, traumas e conflitos, para não falar dessas pequenas neuras ? também conhecidas como raivinhas ? que as pessoas tratam como elefantes ? enormes e incômodos - quando aparecem. Sendo assim, é fácil montar o quebra-cabeça de nosso inferno pessoal, que pode até acontecer depois da morte ? não a dos meus leitores que são pessoas super elevadas, espiritualizadas e de bom coração ? mas que costuma acontecer de vez em quando na vida de cada um, nem que seja por algumas daquelas horas que transformam um dia ordinário em um daqueles dias.

Flanelinhas, por exemplo, são personagens contumazes de meu infernito particular. (more…)

Proponho o fechamento da Academia Brasileira de Letras

Nunca li um livro de José Sarney. Provavelmente para prejuízo de minha inteligência.Afinal, a atriz Daniela Escobar leu e adorou. Depois de conseguir ir até a última página de O Dono do Mar, chegou a dizer que Sarney é melhor autor que presidente.

Mas, convenhamos, até eu pude chegar a esse nível literário - e depois só decaí - quando escrevi a redação Minhas Férias na escolinha da Tia Maria.

Não quero dizer, no entanto, que feitos políticos e executivos possam ter peso negativo sobre a obra de um escritor.

Veja, por exemplo, Louis-Ferdinand Céline, que nutria enorme simpatia pelo nazismo - a ponto de, talvez, na intimidade, ensaiar o passo de ganso. Ainda assim, nos deixou Viagem ao Fim da Noite.

Também não quero comparar Sarney com Céline, pois como afirmei não tenho bases literárias para tal. E, ideologicamente falando, duvido que o ex-presidente se identifique com a raça ariana ou que aprove integralmente as metodologias do Terceiro Reich.

O fato é que Sarney está na Academia Brasileira de Letras.

Você sabe. Aquela, fundada por Machado de Assis. Ocupa a cadeira número 38, que já foi de, entre outros, Santos Dumont. O cara que inventou o avião.

(Diz erroneamente a lenda que ele se matou por conta do uso bélico de sua obra, mas acredito que foi por ter vislumbrado, num surto profético, a atual eficiência da aviação civil brasileira.)

Mas voltemos a Sarney.

Sarney, um caso que justifica o voto secreto para a eleição da ABL, até há alguns meses era um total desconhecido na rede brasileira de blogs.

Alguns editores já tinham ouvido falar de seu bigode. Mas isso era tudo.

Porém, recentemente, o recém-eleito senador pelo Amapá (mas ele não era do Maranhão?) resolveu processar uma editora de blog porque ela publicou um xiste, uma brincadeira com sua figura durante as últimas eleições.

A exemplo de outras iniciativas do gênero, a campanha Xô Sarney - que nem era para ser uma campanha - atingiu maior abrangência do que se ele nada tivesse feito.

Afinal, se você não quer que um sino soe, não use o badalo.

Devo lembrar que trata-se do mesmo senador - do Amapá! Amapá! e certamente ele tem motivos para se eleger por outro estado - que fez um discurso de alta octanagem contra o fechamento de uma rede de tevê na Venezuela por aquele arremedo de Fidel Castro que bate o pezinho e faz beicinho naquele país.

Como é fácil ladrar para o cachorro encastelado no terreno alheio.

Esse mesmo valoroso senador vai à Justiça e pede quase R$ 1 milhão a essa editora de blog porque provavelmente o bigode estava mal aparado na caricatura que ela publicou.

Não sei se Machado de Assis, quando tomou a Academia Francesa como modelo, imaginava que teria entre os imortais de sua instituição um homem que de um lado joga palavras vãs contra um estadista merreca, defendendo a liberdade de expressão, e de outro lado esmaga formigas com o Código Civil debaixo do braço, atacando a mesma liberdade.

Mas o fato é que é isso o que temos.

Entre os chamados imortais está esse Cidadão Kane agropastoril. E, devo admitir, nunca o fardão combinou tão bem com um bigode.

O nome dele, porém, não orna com nomes que o ladeiam como Ana Maria Machado, Ariano Suassuna, Carlos Heitor Cony, Carlos Nejar, Ivo Pitanguy, Moacyr Scliar e Sábato Magaldi e mais uns dois ou três.

Embora orne com outros, por um ou outro motivo.

Então, visto que propor o fechamento do Senado vai contra a democracia, proponho outra coisa.

Que se feche a Academia Brasileira de Letras.

Ganham os outros nomes que citei - que poderão tomar chá em companhias mais recomendáveis - e, por outro lado, o país nada perde dado que neste momento a ABL parece ser tão relevante quanto o próprio chá no que diz respeito aos assuntos nacionais, a julgar por sua habitual omissão como entidade.

Além disso, a importância mais patrimonial histórica que de outro gênero presente no Petit Trianon estará mais protegida com o prédio fechado que com alguns de seus habitués mais ou menos latifundiários a freqüentá-lo.

Assim, temos a tal proposta.

Não se feche o Senado, em nome de nossa suposta democracia. Feche-se sim a ABL, ao menos em nome da memória de Machado de Assis seu fundador que, certamente, teria algumas palavras para falar sobre o assunto.

Caso estivesse vivo e caso seu blog não viesse a ser impedido e multado pela Justiça.