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Churrasco rodízio light FM

Ah, festas, festas. Tempo de confraternizar com a família e os amigos, tempo de curtir ceias de natal e reveillón e para não perder o costume, tempo de levar a parentada toda para almoçar naquela churrascaria supimpa, de onde se sai com pelo menos metade dos neurônios intoxicados pela perniciosa mistura de álcool e fuligem. Mas o brasileiro adora! E churrascaria rodízio é assim: você está lá sentado, apreciando uma picanha, enquanto passam pela sua mesa, garçons solícitos a portar espetos de maminhas, costelas, chuletas, cupins e lombinhos. Daqui a pouco, eis que volta, suculenta e poderosa, a picanha. E você se serve de novo. E assim vai, num ciclo que só termina quando você está irremediavelmente satisfeito, ou seja, não agüenta nem pensar em carne. Sim, mas o que tem isso que ver com rádio?

Explico. Na grade de rádios do dial carioca, existem apenas sete rádios relevantes, já que a grande maioria ou são rádios religiosas, ou de axé-pagode-funk. Das sete rádios relevantes, duas são all-news, ou seja, não tocam música. Das cinco restantes, uma toca música brasileira o dia inteiro (a MPB) e outra toca rock para jovens (a Oi). Sobram-nos três rádios, as chamadas adultas: JB, Paradiso e Antena 1. E é dessas rádios que eu quero falar, pois nestas é que ocorre com mais freqüência, a aparição das chamadas músicas carne-de-vaca. E está aí a relação com a churrascaria.

Sim, sabemos que as rádios – todas elas – quando recebem as músicas de trabalho já devidamente enjabazadas, passam a reproduzi-las o tempo inteiro, ad nauseam, até que aconteça a “memeficação” das mesmas, ou seja, o fenômeno pelo qual os ouvintes, gostando ou não da música, passam a cantá-la mentalmente mesmo contra a vontade. Mas isso são músicas novas, nas quais há um investimento presente para mantê-las no ar e na memória. Mas e aquelas músicas que, por décadas a fio, permanecem inexplicavelmente firmes nas programações, como se tivessem um direito divino de estar ali? Essas sim, são as carne-de-vaca songs. Ah, vocês não estão ligando o nome à pessoa?

Pensem por exemplo, num cantor de bar. Ele pode ter o estilo que for, mas um dia, muitas vezes por constrangimento próprio ou coação do público ele acabará tocando “Andança” (Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi), “Espanhola” (Guarabyra e Flávio Venturini) ou “Flor de Liz” (Djavan). Não há como escapar. Essas são carnes-de-vaca de barzinho, junto com “Tempo Perdido” (Legião) e “Como Nossos Pais” (Belchior). Na rádio, são outras músicas. Depois de anos de árdua pesquisa, eu finalmente trago a vocês a lista das trinta maiores carnes-de-vaca, nacionais e internacionais, das rádios adultas, em uma ordem mais ou menos escalafobética.

Samurai (Djavan)
Como eu Quero (Kid Abelha)
Me Chama (Lobão)
Como Uma Onda (Lulu Santos - Nélson Motta)
Todo Azul do Mar (Flávio Venturini - Ronaldo Bastos)
Amor da índio (Beto Guedes - Ronaldo Bastos)
Coração de Estudante (Milton Nascimento - Fernando Brant)
Papel Marché (João Bosco - Capinam)
Gostava Tanto de Você (Edson Trindade)
Fato Consumado Djavan
Codinome Beija-Flor (Cazuza)
Quase Sem Querer (Legião Urbana)
Get Back (Titãs)
Sozinho (Peninha)
Lua e Estrela (Vinícius Cantuária)
Smooth Operator (Sade)
Your Song (Elton John)
Sweet Child O`Mine (Guns n`Roses)
We Are The Champions (Queen)
Sultans of Swing (Dire Straits)
Every Breathe you Take (Police)
I Don`t Wanna Lose Your Love Tonight (The Outfield)
Borderline (Madonna)
Isn`t She Lovely (Stevie Wonder)
Careless Whisper (George Michael)
Satisfaction (Rolling Stones)
Light my Fire (The Doors)
I Will Always Love You (Whitney Houston)
That`s All (Genesis)
You Are Not Alone (Michael Jackson)

Agora me digam: é possível ligar uma rádio adulta e acreditar que, durante um dia inteiro, nenhuma dessas músicas vai tocar? É tão fácil quanto ir a uma churrascaria e não ter picanha.

E os leitores? alguém aí lembra de outras dessas inefáveis canções?

(publicado originalmente em 1° de dezembro de 2005)

Dicas do VP
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vp_looloo.jpgÚltimo Romântico (Lulu Santos, 1987) - Ah, mas então quer dizer que você gosta de música carne-de-vaca? Ora, e quem não gosta? essas músicas estão há décadas na programação justamente porque as pessoas gostam delas. E que tal duas dicas de CDs cheinhos de hits radiofônicos perenes? Um deles é a coletânea Último Romântico, de Lulu Santos, que apresenta o que de melhor o cantor, compositor e guitarrista carioca produziu durante os primeiros anos do Rock Brasil. Tachado de brega no início dos anos 80, mal sabia Lulu que suas músicas desse tempo sobreviveriam à maioria das canções de seus detratores. E a bem da verdade, neste álbum, encontram-se verdadeiras obras primas do pop nacional, como a faixa-título, “Tempos Modernos”, “De Repente Califórnia”, “Certas Coisas”, “Como Uma Onda” e “Um Certo Alguém”. Foi, de longe, a melhor fase da carreira de Lulu e sem dúvida, trilha sonora inconteste da juventude e adolescência daqueles anos.

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Série Good Times (diversos) - A 98 FM é uma rádio popular do Rio de Janeiro que normalmente toca samba (leia-se pagodão), micareta-music e o fino do que de mais vulgar existe na programação. Mas um de seus programas diários, o Good Times, onde são irradiadas as melhores músicas românticas de todos os tempos, foi a trilha sonora de muito casalzinho da cidade. A série de coletâneas com as melhores músicas do programa é daqueles CDs para o qual os finos e limpinhos costumam torcer o nariz nas gôndolas, mas que fazem verter lágrimas e aflorar as lembranças mais amorosas dos que os escutam. Porque ninguém escapa de ter alguma história em festinhas de adolescência, da hora da música lenta, daquela época mais civilizada onde o tempo parava por alguns minutos para que as pessoas pudessem ficar coladinhas aos seus pares. E a trilha sonora, irmãos, está toda nesses CDs, que se encontram por miseráveis R$ 9,99 nas melhores lojas de departamento.

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Os 35 anos do Clube

Há trinta e cinco anos foi lançado um álbum que revolucionaria a música brasileira, quase como o que ocorreu com o lendário Sgt. Peppers, dos Beatles. Um disco que apresentou ao Brasil não só um jeito novo de fazer música, escrever e compor, mas uma ousadia até então inédita, tanto na forma - um disco duplo, o segundo lançado no país - quanto no conteúdo. Falo do primeiro Clube da Esquina, de 1972, que junto com o álbum Clube da Esquina 2, de 1978, acaba de ganhar uma edição comemorativa, novamente remasterizada, em um box com 3 CDs. Toda a obra de Milton Nascimento, incluindo os dois álbuns do Clube da Esquina, já haviam ganhado versões em CD, remasterizadas nos estúdios de Abbey Road. Agora, sob a batuta de Milton e do produtor João Marcello Bôscoli, os discos ganharam uma nova remasterização, com diminuição de ruído e ganho de volume, mas sem alterar o tamanho e a duração das faixas. Com vozes e instrumentos gravados separadamente em 24 canais, o Clube da Esquina 2 também possibilitou um bom trabalho de remixagem, o que não deu para fazer com o primeiro, gravado em inacreditáveis - para os padrões modernos - dois canais.

vp_clubesquina.jpgGravado por Milton Nascimento e Lô Borges, o disco revelou ao país não só músicas fabulosas como “San Vicente”,”O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “Paisagem da Janela”, “Cravo e Canela”, “Tudo Que Você Podia Ser” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, entre outras tão boas quanto, mas um grupo de músicos já conhecido pelo próprio nome do disco, referência à casa eternamente cheia de gente e música, fincada na esquina das ruas sugestivamente chamadas de Divinópolis e Paraisópolis, onde habitavam os Borges, pai, mãe e onze (!!!) filhos cheios de talento. O grupo do clube, iniciado por Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga, ganharia adeptos, seguidores e admiradores - como Beto Guedes, Nélson Ângelo, os grupo O Terço e 14 Bis, Sá, Rodrix e Guarabyra e mais recentemente a banda Skank - durante as três décadas seguintes, destacando-se como um dos grupos mais prolíficos da história da MPB.

O que não quer dizer que tenha sido fácil. Na época da gravação do primeiro Clube da Esquina, a gravadora Odeon não queria trabalhar com artistas desconhecidos, como Lô e Beto Guedes. O formato de disco duplo demorou a ser aceito - a demora na decisão acabou fazendo que Clube da Esquina perdesse para Fa-Tal, de Gal Costa, a primazia de ter sido o primeiro álbum duplo brasileiro - e até a foto da capa recebeu reclamações, pela ousadia de não apresentar os nomes dos músicos na parte da frente. Após um tumultuado lançamento, a crítica também não foi nada favorável. Não importaram as incríveis harmonias do disco, nem as fantásticas letras. Os críticos diziam que aquilo não era samba e MPB, afinal, tinha que ser samba. Sem querer, Milton ainda provocou mais ainda a ira dos críticos, ao gravar com Alaíde Costa, uma versão nada ortodoxa do samba carnavalesco “Me Deixa em Paz”, de Monsueto e Ayrton Amorim, sem falar em outra estranheza: a gravação de uma música em espanhol, a triste tonada “Dos Cruces” (Carmelo Larrea Carricarte). Ao final do século, contudo, o primeiro Clube da Esquina já era praticamente uma unanimidade em qualquer lista dos dez mais importantes discos de música brasileira da história.

(Nota: ontem foi aniversário do meu filho mais novo, o Léo, cujo nome vem de uma música de Milton e Chico Buarque, do disco Clube da Esquina 2. Dedico a ele este texto, esperando e acreditando que ainda iremos compartilhar muitas dessas músicas na voz, no violão e nos corações.)

Dicas do VP
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vp_vialactea.jpgA Via Láctea (Lô Borges, 1979) - A Via Láctea, ainda que visualmente seja menos lembrado que o lendário disco do tênis - o primeiro de Lô Borges - é considerado o melhor disco do guitarrista e compositor mineiro, fora, é claro, do seu trabalho no primeiro Clube da Esquina. Entre outras ótimas canções, o disco apresenta a primeira gravação com letra de “Clube da Esquina 2″, e músicas inesquecíveis como “Vento de Maio”, “Equatorial”, “Tudo o Que Você Podia Ser” e “Chuva na Montanha”.

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vp_luavaga.jpgContos da Lua Vaga (Beto Guedes, 1981) - Não é leviandade afirmar que Beto Guedes foi o mais popular dos mineiros do Clube da Esquina. Na década de 80, antes da onda do Rock Brasil devastar tudo o que fosse mais lírico, Beto Guedes era o cara. E Contos da Lua Vaga, seu quarto álbum, depois dos excelentes A Página do Relâmpago Elétrico, Amor de Índio e Sol de Primavera, trouxe a sua obra-prima: “O Sal da Terra”, entre outras belas canções, como “Veveco, Panelas e Canelas”, “Tesouro da Juventude”, “Canção do Novo Mundo” e a faixa-título. Depois desse álbum, tudo o que Beto compôs foi menor.

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As armas de Jorge

Foi Hugo Carvana, o ator, quem disse em uma entrevista, que o problema com a crítica cultural brasileira era que ela só elogiava aqueles artistas que considerava gênios, os top-de-linha, os fora-de-série, os Chicos, os Tons, os Caetanos, e que a arte era mais que isso. A arte mediana é reverenciada no mundo inteiro, é parte do dia-a-dia, é o arroz com feijão. Na literatura, por exemplo… não é todo dia que nasce um Proust ou um Joyce, mas aqui no Brasil, escritores como Conan Doyle e Sidney Sheldon, que são reverenciados como celebridades mundo afora, são chamados de literatura menor, isso quando são incluídos entre os “verdadeiros” escritores. E isso acontece em todas as áreas da arte. Porque afinal, não só de grandes protagonistas se faz o teatro e nem só de spallas virtuosos vive uma orquestra. Para cada gênio como Paulo Autran existem muitos esforçados e úteis Marcos Winter, Breda ou Palmeira, só para citar alguns xarás. Para cada Portinari, muitos e muitos Romero Britto. E assim vai. Por sorte, a crítica atual é mais condescendente e sensata com os artistas que vivem na zona média. Artur Dapieve, por exemplo, já teceu (justas) loas a Claudinho e Buchecha e Kelly Key em sua coluna no jornal O Globo. E semana passada, depois de vários anos de injustiçadas críticas e muito preconceito, o novo CD de Jorge Vercillo ganhou uma bela resenha no mesmo jornal.

Não é de hoje que eu gosto e defendo o trabalho deste carioca (que agora incorporou mais um “l” ao seu sobrenome). Alcunhado “o homem que sabia djavanês” pelo genial Ruy Goiaba nesta ótima crônica de dois capítulos, há anos Vercillo se sobressai entre seus pares na música brasileira. Comparado a artistas contemporâneos como os músicos da Trama (Jair de Oliveira, Simoninha, Pedro Mariano e Max de Castro), Jorge Vercillo consegue ser, em todos os aspectos, mais consistente e maduro. Cantor e violonista de grande qualidade, Jorge lançou seu primeiro CD, “Encontro das Águas” em 1993, mas só em 1999, em seu terceiro álbum, “Leve”, alcançou o sucesso, principalmente por conta do hit “Final feliz”, onde ele canta em parceira com Djavan, o que, em uma produção independente, não era pouca coisa. E então, de modo até inesperado para quem era visto em alguns meios como uma boa promessa da MPB, começaram a chover as críticas.

As primeiras falavam de sua semelhança com Djavan, tanto em timbre de voz - coisa que, convenhamos, é impossível mudar, já que é coisa com o qual se nasce - como nas harmonias e composições. Se em parte algumas colocações tem fundamento, por outro lado é difícil dissociar um estilo de uma criação musical semelhante. Afinal, tanto Djavan quanto Jorge, com umas duas décadas de diferença, tiveram as mesmas influências: sons regionais nordestinos (como baião e ijexá), samba e música negra. Depois, quando ficou claro que esse tipo de comparação só ajudava a Vercillo a se tornar mais conhecido e a se aproximar do público, optou-se pela desqualificação. “Ah, é mais um clonezinho, um artista menor”.

Jorge, contudo, não se importou com isso e trabalhou, trabalhou duro. Lançou, em 2002, seu melhor álbum até então: “Elo”, um disco recheado de hits instantâneos, como “Homem Aranha” e “Que nem maré”, e canções sofisticadas como “Celacanto” e “Suave”. Depois vieram os medianos “Livre”, “Signo de Ar” e “Jorge Vercilo ao vivo”, em que Jorge manteve, com algumas poucas escorregadelas, seu padrão. Seu novo lançamento, “Todos nós somos um” - ainda que este nome seja bem pouco criativo, se pensarmos que Jimmy Cliff já fez seu “We all are one” - chega as lojas finalmente incensado pelos críticos. Legitimado por parcerias com Fátima Guedes, Marcos Valle, Jorge Aragão, Leila Pinheiro, Ana Carolina e Danilo Caymmi e gravado por mitos como Maria Bethânia, sem falar em várias músicas mas mais diversas trilhas sonoras de programas de televisão, Jorge Vercillo chega ao melhor momento de sua carreira tendo convencido a crítica e o público. Como disse o crítico Antônio Carlos Miguel em seu texto sobre o mais recente CD de Jorge, “feliz o país que pode ter tocando em suas rádios músicas com a riqueza harmônica e melódica daquelas escritas por Jorge Vercillo. (…) Como o título de um velho disco de George Michael, ouça sem preconceito“.

Dicas do VP
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vp_luz.jpgLuz (Djavan, 1982) - Que Djavan é uma das maiores influências de Jorge Vercillo, isso é óbvio. E me parece óbvio também é que esse gosto deve ter começado pelo mesmo disco que a maioria dos brasileiros teve como a prova definitiva de que Djavan era um dos grandes: Luz, de 1982, que trazia a pedra de toque do músico alagoano, “Samurai”, música eternizada pela gaita de Stevie Wonder. Mas Luz não é só essa música. “Pétala”, “Açaí” e “Sina” também tocaram bastante nas rádios e ajudaram a Djavan alicerçar seu lugar na MPB.
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vp_uns.jpgUns (Caetano Veloso, 1983) - Caetano Veloso nunca foi roqueiro - como ele quer dizer que é agora, quase na quarta idade - mas se deu muito bem nos anos 80, isso é verdade. Seus discos daquela década são quase todos bons e Jorge Vercillo, pelo que produz, certamente os teve em sua vitrolinha. “Uns”, de 1983, é um exemplo da boa produção de Caetano na década do Rock Brasil. Do pop “Eclipse Oculto”, ao samba-enredo “É Hoje”, passando por “Você é linda”, possivelmente a mais bela balada perpetrada pelo músico baiano, “Uns” é um bom disco. Ao lado de outros da mesma época, como “Velô”, “Cores, Nomes”,”Outras Palavras” e “Totalmente Demais ao vivo”, formam uma bela coleção.

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O companheiro fiel (2ª parte)

Somente a partir da segunda década do séc. XX os violonistas passaram a ser respeitados, a partir das obras de músicos como Heitor Villa-Lobos, João Pernambuco e Garoto, este, um dos precursores da bossa nova. O violão passou a ser bastante utilizado também como instrumento para música erudita, música essa constantemente inspirada pelo popular, principalmente o choro. Até meados do século, também os primeiros sambistas, como Donga, Noel Rosa e Ismael Silva contribuíram para a popularização do instrumento. Já na segunda metade do séc. XX, a criação da bossa nova e o sucesso de sambistas como Cartola demonstravam que o violão já era o sustentáculo da música popular brasileira. Neste movimento, surgiram instrumentistas excepcionais, como Baden Powell, Toquinho e João Bosco. Nessa mesma época, violonistas virtuosos como Dilermando Reis e Turíbio Santos mesclavam com grande talento o choro e a música erudita à MPB.vp_guitars.jpgFoi em meados da década de 60 que o violão começou a sofrer as primeiras baixas de popularidade. A época da bossa nova foi atropelada pelas guitarras elétricas da jovem guarda e posteriormente, já na década de 70, do rock. E mesmo quando, alguns grupos de rock, já quase nos anos 90, resolveram ressuscitar os violões, principalmente a reboque dos primeiros MTV Unplugged, eram violões de aço, os chamados folk, comuns principalmente nos EUA, instrumentos facilmente eletrificáveis e de tons mais agudos. Só mesmo quem ainda trabalhava com a MPB tradicional, como Caetano Veloso ou Chico Buarque ainda usava o instrumento de nylon. O sempre antenado Gilberto Gil e o contemporâneo Djavan foram dois que substituíram, nos anos 80, seus violões de nylon por guitarras elétricas. Poucos músicos modernos mantiveram o instrumento vivo. Um bom exemplo foi Milton Nascimento, avis rara em meio aos jovens guitarristas elétricos - como Lô Borges, Beto Guedes e Toninho Horta - do Clube da Esquina. De qualquer modo, também foi nessa época que começaram a despontar os primeiros virtuosos regionais nordestinos do violão, como Xangai e Geraldo Azevedo. E menestréis como Oswaldo Montenegro também não deixaram a peteca cair.

E assim seguiu a humanidade através dos anos 90 até o novo século. Os grupos de pagode e posteriormente os novos sambistas de raiz mantiveram os violões de nylon em alta. Os sertanejos, mais afinados com o country norte-americano, popularizaram os violões dreadnought (folk) de estridentes cordas de aço. E nunca, desde o início da carreira do instrumento em nossas terras, se tocou tanto violão nesse país. Diversos acústicos foram gravados pela MTV; Roberto Carlos tocou “Detalhes” em nylon; os virtuosos do Boca Livre misturam aço e nylon com mestria; roqueiros de diversos estilos empunharam instrumentos acústicos; as antigas divas da MPB ganharam a companhia de mulheres instrumentistas, como Zélia Duncan, Ana Carolina e Isabela Tavianni; jovens e virtuosos músicos eruditos, como o precocemente falecido Raphael Rabello e o garoto Yamandú Costa tornaram-se sucesso; e hoje, o que há de mais contemporâneo e avançado na MPB, o genial pernambucano Lenine, faz misérias em seus violões do mais puro nylon.

Cantado em prosa e verso país afora por chorões, trovadores, sambistas, caipiras e até roqueiros, o violão também é personagem constante da música brasileira. Afinal, o Brasil é, sem dúvida, a pátria de “um cantinho e um violão”, de Tom Jobim, da “Viola Enluarada” de Marcos Valle, da viola que Edu Lobo e Capinam queriam ter agora para tocar em “Ponteio”, das “Cordas de Aço” do violão de Cartola, do violão deixado mudo pela “Rita” de Chico Buarque, da viola que o pobre moreno de Lamartine Babo e Ary Barroso empunha em “No Rancho Fundo” e a que “um violeiro toca” na moda pantaneira de Almir Sater, e o violão com que João Roberto, o Johnny, conquistava as meninas em “Dezesseis”, de Renato Russo. Na minha opinião, contudo, o mais belo verso feito para o instrumento até hoje é da música “Arte Longa”, canção de Geraldo Amaral e Renato Rocha, gravada por Geraldo Azevedo, que diz: “meu violão não pesa muito/ carrega tantas canções”. Mais que isso, os violões brasileiros carregam todo um país.

Dicas do VP
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vp_geraldin.jpgA Luz do Solo (Geraldo Azevedo, 1985) - O nordeste brasileiro foi território de origem de muitos e grandes músicos. Dentre os músicos populares nordestinos, muitos se destacam no talento com que lidam com as seis cordas. Gilberto Gil, Djavan, Moraes Moreira, Alceu Valença, Xangai, Elomar, Vital Farias, Zé Ramalho, Lenine, Zeca Baleiro e o erudito Canhoto da Paraíba são exemplos. Dentre estes todos, Geraldo Azevedo se destaca por ser o que mais aproxima o virtuosismo do violão clássico ou erudito das mais populares canções. Um dos mais bem sucedidos e queridos músicos nordestinos, Geraldinho mostra neste show ao vivo A Luz do Solo, uma seqüência apaixonante de seus melhores sucessos, interpretados apenas na voz e no violão. Elba e Zé Ramalho fazem participações especiais nesse espetáculo de 1985, que traz, como destaques, a primeira gravação liberada pela censura de “Canção da Despedida”, entre outros conhecidíssimos sucessos, como “Moça Bonita”, “Canta Coração”, “Táxi Lunar” e “Bicho de Sete Cabeças”. Um álbum clássico.
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vp_raphae.jpgTodos os Tons (Raphael Rabello, 1992) - Dentre todos os violonistas eruditos desse país, talvez nenhum tenha tido um sucesso popular tão grande quanto Raphael Rabello. Apresentado ao grande público por Ney Matogrosso em seu álbum À Flor da Pele (1990), após ter estudado com o grande Dino 7 Cordas e tocado com o maestro Radamés Gnatalli, o violonista foi durante sua curta carreita, parceiro de alguns grandes nomes da MPB, como Eliseth Cardoso, Paulo Moura e os guitarristas Romero Lubambo e Armandinho - o do trio elétrico. O disco Todos os Tons, tributo do músico à magnífica obra de Tom Jobim é, de toda a sua obra instrumental, possivelmente o álbum mais palatável, ainda que isto não diminua em nada o esplendor de sua técnica. Todo o disco é excelente, da primeira à última nota, com destaques para “Samba do Avião”, que ele executa em dupla com o lendário violonista espanhol Paco de Lucia, “Pois é”, em que toca com Paulo Moura e o genial - e também falecido - baixista Nico Assumpção, e “Garoto”, com participação do próprio Tom Jobim e de Leo Gandelman. O “Mozart do choro”, como Raphael chegou a ser chamado, lamentavelmente deixou mudos os seus violões em 1995, ao falecer por complicações respiratórias com apenas 32 anos.

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O companheiro fiel (1ª parte)

A música popular brasileira é notavelmente rica e cheia de nuances. Desde seu início, possivelmente marcado pelas primeiras composições de Chiquinha Gonzaga, ao final do séc. XIX, a música popular evoluiu através de inúmeros ritmos, como o choro, a música caipira, o samba, a bossa nova, misturando-se ao rock, ao pop e ao country, passando pela música regional de diversos formatos (forró, baião, xaxado, emboladas, repentes, carimbó, bois, catiras, chulas e etc…) até desaguar no pop moderno, repleto de fusões entre as mais diferentes formas de música. Um elemento, contudo, é chave para entender como essa música popular tão fragmentada em dezenas de formas e ritmos, consegue se unir sob uma inquestionável identidade e ser entendida como brasileira: o violão, instrumento comum a todo esse rico manancial de harmonias e melodias. Está no violão o segredo para se entender a música brasileira como um todo.vp_violao.jpgE os segredos do próprio instrumento também ajudam a compreender o seu sucesso em nossas terras. O violão, para a música brasileira, funcionou como os campinhos de várzea para o nosso futebol: era o que estava à mão, ao mesmo tempo o caminho mais simples, a oportunidade primeira e a escola. É que o violão, entre todos os instrumentos harmônicos, é o mais barato e o mais fácil de se aprender, sem falar que não necessita de apêndices trabalhosos, como os amplificadores e efeitos, essenciais às guitarras elétricas, nem de muito espaço, como baterias e pianos, nem sequer de luz elétrica, como no caso dos teclados. Em termos comparativos, um violão de qualidade razoável pode custar até quatro vezes menos que uma boa flauta transversa. Antes da década de 90, não era difícil encontrar violões brasileiros de boa qualidade e custo bem interessantes e depois da abertura das importações então, era mais fácil ainda. Violões existem para todos os gostos e bolsos, desde os quase descartáveis made in china até preciosos instrumentos feitos à mão por luthieres consagrados como os brasileiros Mário Passos e Suguiyama, ou como os do inglês Paul Fischer, considerados os Rolls-Royce dos violões. (E eu que cheguei a ter um desses em mãos e por estar afinado para canhotos eu não pude tirar dele uma nota sequer. Mas testemunho que ele soa como um grande piano).

Mas não é só nas relações de custo-benefício que reside a versatilidade do instrumento. Violões se prestam a improvisos os mais diversos. O músico Egberto Gismonti, que em entrevista, afirmou já ter usado até linhas de pesca para encordoar um violão, na falta de lugar para comprar cordas de verdade, que o diga. Existem violões de nylon de 6, 7 e 8 cordas, enquanto os de aço costumam ser de 6 ou 12 cordas, mas há músicos, como o ex-líder e guitarrista do Sepultura, Max Cavalera e o guitarrista do President of The United States, Dave Dederer, que se viravam com apenas 4 ou 3 cordas em seus instrumentos, respectivamente. Violões também se prestam a diversas afinações, que podem multiplicar suas possibilidades harmônicas, harmonias essas que também podem ser facilmente aprendidas. Ninguém precisa passar por tatibitates musicais para aprender violão. Por exemplo, com apenas um miserável tom, o de dó maior (CM, GM, Am, F), tocam-se músicas importantes e conhecidas, como “Let it Be” (Lennon - McCartney), “Woman no Cry” (Marley), “Será” (Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) ou “Como eu Quero” (Herbert Vianna). Aprender violão é ridiculamente fácil, bastando apenas que ele esteja fora da capa. E nem precisa ser um virtuoso violonista para impressionar as menininhas. O violão é um companheiro fiel de violeiros e enroladores. Qualquer outro instrumento mal tocado costuma parecer um animal agonizante, menos o dócil violão.

Mas como foi que o violão chegou ao Brasil? Bem, o violão como o conhecemos hoje, chamado de violão clássico ou de nylon, originou-se da viola portuguesa, instrumento de dez cordas de aço que se assemelhava ao que hoje se conhece como viola caipira, que por sua vez, originou-se das vihuelas espanholas (séc. XVI) e posteriormente, das guitarras barrocas (sécs. XVII e XVIII). As primeiras violas possivelmente chegaram ao Brasil com os jesuítas, no séc XVI. Foi no séc. XIX, contudo, que o violão tomou sua forma definitiva, com seis cordas e de uso predominantemente urbano. Pela sua facilidade de aprendizado e uso, além da portabilidade que outros instrumentos não possuíam, o violão se tornou o instrumento favorito para o acompanhamento da voz e na música instrumental. Em conjunto com cavaquinhos, bandolins e flautas, formava a base dos conjuntos de choro, os chamados regionais. Contudo, por ser usado essencialmente na música popular e pelo povo, o violão adquiriu a fama de ser instrumento de malandros, boêmios e vagabundos, como eram considerados os seresteiros e chorões do final do séc XIX, chegando em alguns lugares a ser proibido. (continua)

Dicas do VP
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vp_americi.jpgAmericana (Boca Livre, 1995) - Se um bom músico pode fazer misérias com apenas um violão, imaginem três excelentes músicos sob a batuta de um dos melhores arranjadores de música popular desse país. Isso é uma descrição simplória do que é o grupo Boca Livre. Simplória, porque é difícil descrever o que estes músicos fazem de posse de seus instrumentos e de suas partituras. Americana, álbum gravado nos EUA em 1995, de todos os trabalhos do grupo, é o mais bem produzido e arranjado. Disco de canções inéditas, pode não ter hits do nível dos fantásticos “Toada” e “Quem tem a Viola”, mas poucas vezes o grupo soou tão harmônico. Os arranjos de Maurício Maestro, os violões, tambores e flautas de Lourenço Baeta, o violão firme e a voz afinada de Zé Renato e a voz densa e os solos virtuosos de Fernando Gama, quando juntos, são um deleite aos ouvidos. Americana apresenta belas canções, como a enérgica “Duas Praias”, a potente “Rodando a Baiana”, parceria de Maestro com Joyce, as doces “Paraíso” e “Eyes Capuccino”(esta um instrumental de Gama) e ainda “Maracatu Silêncio”, obra prima de Lenine e Lula Queiroga. De quebra, uma bela regravação de “I Need You”, de George Harrison. Um belo disco para deixar tocando horas a fio.
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vp_jbosco.jpg100ª Apresentação ao Vivo (João Bosco, 1983) - João Bosco é um músico sui generis entre os grandes da MPB. Eternamente ao largo da grande mídia, conseguiu em mais de trinta anos de carreira, compôr grandes e inesquecíveis sucessos e obter um público que se manteve sempre fiel, não importando origem, nem época, nem idade. Apesar de pouco lembrado - o de Gilberto Gil é mais vivo na memória - foi dele o primeiro acústico MTV gravado no brasil, em 1992. E além de todo seu talento como intérprete e compositor - de parcerias memoráveis com o genial Aldir Blanc - João Bosco também é um talentosíssimo violonista, de técnica apurada e enérgica. Neste álbum ao vivo, gravado em 1983, o músico destila seus maiores sucessos, como “Mestre Sala dos Mares”, “Linha de Passe”, Kid Cavaquinho”, “A nível de…” e a mitológica “O Bêbado e a Equilibrista”, libelo de toda uma geração contra a ditadura. E ela nem tinha acabado ainda. Um belo disco.

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