Faz muitos anos que os meus natais são parecidos uns com os outros. Basicamente, tudo gira em torno do encontro familiar, da ceia, da troca de presentes. Antigamente, quando eu morava em Fortaleza, eu gostava que chegasse dezembro para ver as casas enfeitarem de luzes as árvores de seus jardins. Os jardins diminuiram, a energia elétrica ficou mais cara e o natal passou a começar em setembro, nos últimos anos.
As minhas comemorações de natal nunca mudaram muito de forma, apesar de terem mudado bastante de lugar. Quando criança, eram na casa de meus avós, entre os primos e tios e os especiais de Roberto Carlos. Quando casei pela primeira vez, já no Rio de Janeiro, abandonei meus pais para passar a comemorar o natal com meus sogros, cunhados e sobrinhos. Comida, presentes e nada de Roberto Carlos. Um cunhado se vestia de Papai Noel e vinha de manhã entregar os presentes das crianças. E todas elas sabiam que ele era o tio. Casado pela segunda vez, meus natais passaram a ser cumpridos em viagens, algumas constrangedoras. Numa delas, meu filho teve de levantar dezenas de vezes para receber presentes dados pelo Papai Noel do hotel, enquanto as outras crianças tinham que se contentar com um ou dois presentes. De outra vez, meu filho teve medo do bom velhinho - um animador musculoso paramentado de vermelho e pelúcias. Confesso que me diverti naquele ano, vendo que o personagem principal de nossa comemoração - meu filho - não se agradou muito daquela pantomima, assim como eu, tampouco. Este ano, por conta de minha mudança de casa, verá um natal simples no solar onde ainda resido.
O fato é que eu tenho sentimentos divididos pelo natal. Se por um lado a época é agradável, de fim de ano, de supostas reflexões, por outro eu vejo que a cada ano o natal perde os últimos fiapos de religiosidade que ainda possui. Na mesma proporção em que as árvores monumentais patrocinadas por banco batem recordes de altura e as vitrines brilham como jamais brilharam, a lembrança de que o natal é (ainda que baseada numa celebração pagã, whatever) uma festa da cristã e religiosa se desvanece. Muito por culpa dos cristãos como eu, é verdade. Católicos não tem a tradição de festas familiares. Todas acabam parecendo meio ridículas, do tipo “pô, que mané oração, eu quero é comer esse peru de uma vez, cacete”. Nessas horas, confesso, eu sinto uma indisfarçável inveja dos judeus.
Um natal, contudo, um único nesses 37 anos, marcou minha vida. E é interessante que eu jamais tenha falado dele durante os cinco anos que eu escrevo na rede. Não que eu o tivesse esquecido. Talvez o stress do dia a dia, a rotina sufocante e o que é pior, a distância insolucionável de quase todos os personagens desse dia, tenham deixado este momento guardado em uma gaveta empoeirada. Recordei-me dele dia desses em uma conversa com um companheiro de infortúnios e ele disse: “isso dá um bom texto”. Agradeço a ele por ter me dado a óbvia idéia.
Éramos cinco amigos, três caras e duas meninas, na faixa dos 20 e pouquinhos. Pertencíamos a um enorme grupo de encontro de jovens com Cristo da zona sul do Rio. Além desse grupo, fazíamos parte de um grupo menor, de umas 12 pessoas, que se reunia uma vez por semana com uma teóloga para estudar a Bíblia. Dentro desse grupo menor, ainda havia a nossa panelinha, os cinco cavaleiros do apocalipse, sendo a “indecisão” o membro excrescente e mais não me perguntem, pois tudo o que posso dizer é que ele era um imprudente evangélico num grupo de católicos remidos. Mas era nosso amigo. O ano de 1990 havia sido muito produtivo na vida de todos e estávamos todos muito felizes. Dias antes do natal, fizemos uma pequena celebração no grupo de estudos e aquilo parecia ter feito as vezes de nossa festa natalina. Nossa panelinha, contudo, queria mais. Marcamos então de nos encontrar pouco antes da meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro daquele ano na Praia Vermelha, bairro da Urca, Rio de Janeiro, depois, é óbvio, das celebrações familiares de cada um. E assim fizemos. Sentados na areia, montamos um presépio com algumas figuras de plástico barato e compartilhamos uma garrafa de vinho e um pão, enquanto fazíamos uma oração. Em toda a minha vida, foi o primeiro natal passado apenas na presença da sagrada família. Não havia ceia, não havia presentes, não havia lâmpadas e enfeites coloridos, especial de cantor, brindes, roupas de festa. Havia apenas uma cena de natal, pura e simples. E respeito e silêncio.
Meses depois, esse mesmo grupo viajaria para um retiro em silêncio, no carnaval de 1991, no gigantesco mosteiro onde funciona a CNBB, em Indaiatuba, interior de SP. De lá, voltamos absolutamente destroçados. Deus, percebemos, não era para fracos da classe média alta carioca. Três anos depois, parte do grupo, eu incluído, abandonou ruidosamente o encontro de jovens. Perdemos o contato com o membro indeciso. O resto casou-se, teve filhos, separou-se, mudou de cidade. Com uma das meninas, me encontro vez em quando, só para ela me dizer que eu não mudei nada. Nada mais longe da verdade. Os outros dois, sei deles por orkut ou email. Mas de um natal como o de dezembro de 1990, nunca mais soube, nunca mais vi, nunca mais ouvi falar.