As corporações querem comer você: é natural que elas queiram o fim da neutralidade na rede

Os Estados Unidos fizeram a 14ª emenda a sua constituição, depois da Guerra Civil, para garantir sobretudo os direitos às mulheres e homens negros recém-libertados.
Décadas após ela surgir apenas algumas duas ou três dúzias de cidadãos negros abriram processos em que a evocavam.
E centenas de empresas, corporações, faziam o mesmo.
Isso foi possível porque em algum momento algum advogado teve a genial idéia de enquadrar uma corporação no conceito de pessoa. Pessoa jurídica. Com direitos e tudo o mais. A justiça americana, na época, acatou.
Antes disso, corporações tinham data para começar e terminar e o objetivo de realizar um empreendimento em que alguém, sozinho, não daria conta.
Claro. Ao mesmo tempo em que uma empresa tem direitos ela tem deveres. Porém não tem um corpo - para prender - ou, ao menos, a suposição de uma alma - para condenar à danação eterna.
Ao longo do documentário A Corporação uma das coisas mais interessantes que se demonstra é o tipo de personalidade que essas grandes empresas teriam se existissem fisicamente tanto quanto existem juridicamente: a personalidade de um psicopata. Elas não estão sujeitas aos mesmos dilemas morais que nós, que temos um tempo limitado de existência e a ligação ética e emocional com as pessoas próximas.
- Assista à coorporação no YouTube: vai lá, pô! Arrumei em ordem numa playlist as 16 partes. Tá legendado e tudo. É só sentar, pegar a pipoca e assistir.
O engraçado, no filme, é ver que mesmo as pessoas que estão no comando dessas grandes empresas tem pouco poder sobre elas. O indivíduo não tem mais força que a egrégora. Ou se vai na mesma direção que ela ou se é substituído de uma forma ou de outra. Isso não é motivo para se omitir, porém.
O indivíduo pode fazer o seguinte:
Relembremos as origens da rede (…). O segundo avanço foi o desenvolvimento em 1990 da WWW (World Wide Web), a famosa teia mundial, pelo físico inglês Tim Berners-Lee, revolucionando o modo de navegação e apresentação de conteúdos, com a integração de textos e imagens, por meio de hyperlinks e conexões instantâneas, em linguagem HTML.
(…) Berners-Lee decidiu ceder gratuitamente ao mundo seus direitos sobre o software da WWW. O altruísmo do pesquisador contrasta com a ganância atual das operadoras de telecomunicações americanas. Sua resposta aos colegas de pesquisa foi categórica: “Não preciso desses royalties. Por isso, eu os cedo gratuitamente à humanidade. É a minha contribuição à democratização e universalização da internet”. (Fonte: Ministério da Cultura).
Talvez seja com essas belas palavras que ele seja lembrado na História, não?
Claro que Berners-Lee teria ganhos com sua descoberta, mesmo abrindo mão dos royalties. Mas ele sabia que não precisava de todos os ganhos possíveis. Diferentemente, uma corporação não é capaz de abrir mão de coisas a não ser em algumas situações que envolvam cerceamento jurídico, negociação com outras empresas e necessidade mercadológica.
Afinal, uma corporação…
… incorpora. Oras bolas.
Dar coisas gratuitamente, de fato, não faz parte da natureza das corporações e sempre que alguma me oferece algo nesses termos eu penso no que ela vai ganhar com isso. De graça é o preço mais alto que você pode vir a pagar.
Por isso, quando as empresas de comunicação do Brasil começarem a falar do fim da neutralidade da rede por aqui - se falarem - para dar mais qualidade de acesso e conteúdo para você, pense no que elas estarão tentando tomar.
Melhor ainda: a coisa é mais sutil. Pense no que elas querem que você ceda.
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March 14th, 2008 at 10:03
Não se deve criticar de forma inconseqüente a personalidade jurídica. Não sem ponderar o alcance das críticas.
March 14th, 2008 at 11:03
Neutralidade na rede: as corporações querem comer você…
É natural que elas queiram o fim da Neutralidade na Rede….
March 14th, 2008 at 02:03
Não critiquei, Nadal. Apenas relatei o que vi no documentário e coisas que vejo por aí. Abraços, meu caro!
March 15th, 2008 at 11:03
oi Alessandro,
veja isso aqui: http://www.techcrunch.com/2008/03/15/japanese-isps-to-ban-file-sharers/